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Psicanálise e Fonoaudiologia: Entre Sons e Sentidos


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Psicanálise e Fonoaudiologia: Entre Sons e Sentidos

A relação entre psicanálise e fonoaudiologia é marcada pelo encontro entre o corpo que fala e o sujeito que é falado pela linguagem. A fonoaudiologia, enquanto ciência da comunicação humana, preocupa-se com os aspectos orgânicos, motores e perceptivos da produção e recepção da fala. Já a psicanálise se volta para os processos inconscientes que estruturam o sujeito, entendendo que o sintoma não é somente algo a ser eliminado, mas uma formação de compromisso que diz algo sobre o sujeito e sua relação com o desejo.

1. Sons que se tornam sentidos.

Na clínica fonoaudiológica, trabalha-se para que o indivíduo possa articular, ressoar e emitir sons de forma compreensível. Contudo, há uma dimensão mais profunda: a de que a fala não é apenas som, mas também discurso. A psicanálise, especialmente na perspectiva lacaniana, lembra que o sujeito é constituído na linguagem – e, portanto, um atraso de fala, uma gagueira ou uma disfluência não são meramente falhas motoras, mas modos singulares de inscrição do sujeito no laço social.

Assim, o encontro entre as áreas pode se dar no reconhecimento de que o som é apenas o ponto de partida: é preciso escutar o que aquele som (ou seu silêncio) significa para o sujeito.

2. O sintoma como fala

Para a psicanálise, o sintoma fala — mesmo quando se manifesta no corpo. Uma criança que não fala, por exemplo, pode estar dizendo algo com esse silêncio: pode ser um modo de se posicionar no campo do desejo dos pais, uma forma de marcar sua diferença, ou mesmo de denunciar algo de seu sofrimento psíquico.
O trabalho fonoaudiológico, quando atento a essa dimensão, não se limita a “treinar” sons, mas se torna também um espaço de escuta, permitindo que a própria fala se torne um ato de subjetivação.

3. Interdisciplinaridade e clínica ampliada

O diálogo entre psicanálise e fonoaudiologia enriquece a prática clínica. A psicanálise pode oferecer ao fonoaudiólogo uma escuta sensível para além da técnica, ajudando-o a perceber o que se repete, o que se cala e o que emerge no discurso do paciente. Ao mesmo tempo, o fonoaudiólogo oferece ao psicanalista ferramentas concretas para favorecer a expressão oral, abrindo caminhos para que o sujeito se inscreva na linguagem de modo mais autêntico.

4. Entre o som e o sujeito

Trabalhar “entre sons e sentidos” significa reconhecer que o som só se torna linguagem quando é habitado por um sujeito. O ruído, o choro, o balbucio, o erro e até o tropeço da gagueira são modos de enunciação — e, portanto, carregam significação. O desafio é acolher essa dimensão subjetiva sem reduzir o fenômeno a um problema exclusivamente orgânico ou exclusivamente psíquico

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