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Ludwig Wittgenstein: o filósofo que mudou a forma como entendemos a linguagem

"As fronteiras da minha linguagem são as fronteiras do meu universo."Ludwig Wittgenstein

Fonte: História de Raony Salvador
 Revista Fórum


Ludwig Wittgenstein é amplamente reconhecido como uma das figuras centrais da filosofia moderna. Sua obra promoveu uma profunda transformação na maneira como compreendemos a linguagem, o mundo e a própria tarefa filosófica. Embora por muito tempo tenha sido considerado um pensador árduo e hermético, suas ideias seguem exercendo forte influência nas ciências humanas, nas artes e até no pensamento político. Ao longo de sua trajetória intelectual, Wittgenstein passou de uma concepção que via a lógica como chave para a compreensão do mundo a uma visão segundo a qual a filosofia é, sobretudo, uma atividade de esclarecimento, voltada para a dissolução de confusões linguísticas do cotidiano.

Nascido em Viena, em 1889, Wittgenstein cresceu em uma família rica e culturalmente influente. Sua formação ocorreu em um ambiente intelectualmente estimulante, marcado por uma busca intensa por respostas a questões filosóficas fundamentais. Inicialmente interessado em engenharia, ele acabou sendo gradualmente atraído pela filosofia, área na qual encontraria seu principal campo de investigação.

O ponto de inflexão ocorreu em 1911, quando Wittgenstein se mudou para Cambridge para estudar com Bertrand Russell, então um dos nomes mais proeminentes da filosofia. Em pouco tempo, destacou-se como uma presença singular nos debates filosóficos, com Russell reconhecendo rapidamente seu talento excepcional e sua habilidade para enfrentar problemas filosóficos de alta complexidade.

Após a Primeira Guerra Mundial, Wittgenstein escreveu sua primeira grande obra, Tractatus Logico-Philosophicus, publicada em 1921. Nesse livro, propôs uma concepção radical da relação entre linguagem, pensamento e mundo, fundamentada na lógica. Para Wittgenstein, a linguagem possuía uma estrutura lógica que espelhava a estrutura do mundo, e cabia à filosofia esclarecer os limites do que pode ser dito com sentido. Ao demarcar essas fronteiras, ele sugeria que muitos dos problemas tradicionais da filosofia não passavam de confusões geradas por usos inadequados da linguagem.

Do Tractatus à filosofia do cotidiano

A mudança mais significativa em seu pensamento ocorreu na década de 1930, quando Wittgenstein abandonou a perspectiva lógica e sistemática de sua obra inicial. Passou, então, a se concentrar no modo como a linguagem é efetivamente usada na vida cotidiana. Em vez de buscar uma linguagem ideal capaz de representar o mundo com precisão absoluta, ele passou a defender que a linguagem deve ser compreendida a partir de seu uso prático, nos variados contextos das atividades humanas. Essas reflexões culminariam em sua obra póstuma, Investigações Filosóficas.

Nessa fase, Wittgenstein rejeita a ideia de que a filosofia deva construir grandes sistemas teóricos. Ao contrário, propõe uma concepção terapêutica da filosofia: uma atividade destinada a esclarecer confusões conceituais geradas pelo uso equivocado das palavras. Para ele, muitas questões filosóficas clássicas, como as da ética ou da metafísica, emergem justamente desses mal-entendidos linguísticos. Assim, o papel da filosofia não seria oferecer respostas definitivas, mas esclarecer o uso da linguagem e indicar os limites do que pode ser dito de modo significativo.

Jogos de linguagem

Um dos conceitos centrais da filosofia tardia de Wittgenstein é o de “jogos de linguagem”. Por meio dessa metáfora, ele enfatiza que a linguagem não funciona como um espelho do mundo, mas como uma prática humana, regulada por regras que emergem do uso e do contexto. Não existe um significado único e essencial das palavras; ao contrário, o significado reside no uso que fazemos delas em diferentes situações e formas de vida.

Wittgenstein rejeita, assim, a ideia de que as palavras possuam uma essência fixa comum a todos os seus empregos. Os significados variam conforme os jogos de linguagem em que estão inseridos. A palavra “jogo”, por exemplo, pode designar práticas muito distintas, como esportes, atividades recreativas ou jogos de tabuleiro. Seu sentido não está em uma definição abstrata, mas na maneira como é utilizada em contextos específicos.

Essa concepção representa uma crítica direta ao dogmatismo filosófico, que busca impor definições rígidas e universais à linguagem. Para Wittgenstein, a filosofia tradicional falhou ao tentar compreender a linguagem de forma abstrata, desconsiderando sua dimensão prática, social e contextual.

Filosofia como terapia

A transição para uma filosofia de caráter terapêutico constitui uma das contribuições mais duradouras de Wittgenstein. Em vez de elaborar teorias explicativas, o filósofo deveria ajudar a esclarecer os impasses que surgem quando a linguagem nos induz ao erro. A filosofia, nesse sentido, não é um corpo de doutrinas, mas uma prática voltada à dissolução de confusões conceituais.

Em Investigações Filosóficas, Wittgenstein recorre à famosa imagem de “mostrar à mosca a saída do frasco”. A tarefa da filosofia seria justamente libertar o pensamento das armadilhas criadas pela linguagem, permitindo uma visão mais clara dos problemas. Em vez de responder às grandes questões filosóficas, o filósofo deve examinar como essas questões surgem e revelar as ambiguidades que as sustentam. Muitas delas, segundo Wittgenstein, não são problemas genuínos, mas efeitos de um uso desorientado da linguagem.

A revolução wittgensteiniana ultrapassou os limites da filosofia acadêmica e impactou profundamente nossa compreensão do significado e da linguagem na vida cotidiana. Ao abandonar a busca por sistemas teóricos fechados, Wittgenstein nos ensinou a olhar para a linguagem como uma prática viva, dinâmica e historicamente situada. Seu legado permanece atual ao nos lembrar que a filosofia não é a busca por verdades absolutas, mas um exercício contínuo de esclarecimento, atento às formas pelas quais a linguagem molda nosso modo de pensar e de habitar o mundo.


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